Vivo encastelado em meus sentimentos. Até que sou bom em fingi-los e deixar com que as coisas pareçam mais normais do que realmente são. Enquanto sou destruído aos poucos, consigo sorrir com o meu melhor e aparentar a primavera quando, na verdade, dentro de mim, só sinto a tormenta das borboletas inquietas querendo fugir pela boca do estômago.
Mas as coisas acontecem por que optamos por isso, fui blindado por muito tempo. Tanto tempo que resolvi abrir uma porta, uma visita inesperada que não seria nada mais do que uma visita boa. A partir do primeiro pé, as rochas começaram a cair, eu acreditei que era ilusão. Eu escolhi deixar entrar. Já fiz sair antes e dessa vez a sensação é consciente…
Mais uma vez, ser adulto e me encantar como criança me fez sentir perdido. Dolorido. Dor.
Como é possível conviver com duas sensações antagônicas e tão fortes ao mesmo tempo? Não falo, mesmo que isso me faça sofrer mais. Mas não é porque sou forte… É porque sou covarde. Nunca tive coragem de encarar os fatos de forma a impor minha razão. Sempre que abro as mãos vejo as coisas escorrerem e meus sentimentos, duros como rocha, machucarem de dentro para fora. Tudo por que a covardia juvenil não foi embora com o tempo, acentuou-se de tal forma que a dor é sempre maior.
Dor, sem palavras, sem definição; apenas dor. Inquietação da alma por deixar que o instinto não sirva como guia para o que está acontecendo. Rio sozinho, pois rir com alguém dói mais do que eu poderia suportar. E rir enquanto sua alma desconcertada se perde na imensidão do tudo que você não tem não é tão simples, até mesmo para quem finge entender e sorrir para as respostas que sente como martelos nos dedos.
Por isso, a resposta certa seria perder-me, mas como me perder se nem mesmo encontrado fui? Sem referências, aberto, escancarado e despreparado – mais uma vez – para lidar com algo tão grande que me faz sentir como uma criança, no frio, sem a mãe, sem as mãos…
