Eu, Theatro Municipal, Rio de Janeiro, Piano, Philip Glass e Tim Fain

O ambiente imponente do recém restaurado teatro é realmente algo que impressiona. Detalhes luxuosos e agradabilíssimos aos olhos. Estava ali para assistir uma apresentação, pela primeira vez. Mas, de entrada, tomei um choque com o comportamento do público carioca que me lembrou as aulas da quinta série.

Houve um atraso na retirada de ingressos para quem havia efetuado a compra on-line e de repente ouço vaias sobre a voz de quem avisava o ocorrido. Para a minha surpresa, quem vaiava com mais vontade eram aqueles velhotes e velhotas que cobram educação da nova geração. Olha, a vibe da apresentação quase fugiu ali. Mas o principal ainda não havia chegado.

Glass adentra ao palco e balbucia alguma coisa em português, não entendo quase nada do que ele fala. Senta-se ao piano e toca uma música da trilha de “As Horas” e outra de “Notas sobre um escândalo”. Mas as notas são marteladas no instrumento com tanta displicência que, pra mim, naquele momento, imaginei que veria uma apresentação sem alma, movida somente pela mecanicidade de um compositor renomado. Acredito que o compositor tenha feito isso pela necessidade de ter que tocar suas músicas mais conhecidas todos os dias, então vai do jeito que der.

Graças a Deus, após essa estranha introdução, apareceu – para dividir a noite – o violinista Tim Fain que, de entrada, colocou o coração nas cordas do violino – perdão pela frase chupeta -.

Levou a atenção de todos para o palco de maneira avassaladora. Notava-se a vontade do instrumentista. Foi ali que a noite realmente começou. Se apresentou por aproximadamente 45 minutos, até o intervalo.

Aí entram minhas ponderações sobre o ambiente. É muito interessante perceber a necessidade de silêncio extremo em uma sala de concertos. O simples movimentar na cadeira parecia o fim do mundo. Tosses e espirros pareciam a chegada da caravana do Gugu, mas é realmente um ambiente muito diferente de tudo que já experimentei.

Após retornar do intervalo, Philip Glass e Tim Fain iniciam uma sequencia de duetos que realmente era o melhor da noite.

Ouvir aquele som limpo se propagando pelo espaço de forma tão harmônica colocou meus sentidos em alto nível de percepção. Era fechar os olhos e deixar com que o som conduzisse o que estava passando pelo cérebro. É interessante também prestar atenção em como as pessoas “assistem” um concerto de música clássica. Alguns encostavam a cabeça na parede, sem possibilidade real de ver o que acontecia no palco, outros se abraçavam… Eram experiências sensoriais distintas. No entanto, ao final da apresentação todos estavam em uma mesma frequência.

Olhar, sentir e dividir esse momento acabou por ser o tudo da noite. Ouvir ali, ao vivo, músicas que tanto gosto – mesmo tocadas de forma tão “experimental” – aguçou minha ânsia por novidades. Philip Glass funcionou como um excelente apresentador de novos talentos deixando um bom espaço para que Tim Fain encantasse a noite no Theatro para quem aprecia boa música.