Morissete, Florianópolis e as lágrimas do céu
Fevereiro 11, 2009
Noite, chuva e expectativas. Um show que poderia ser só mais um, mas havia a vontade de esperar mais de uma mulher que se sente “ so unsexy for someone so beautiful”, mas que se pergunta “Are you thinking of me when you fuck her?”. Bem, a fila não era tão grande quanto eu esperava – para aquela hora-, mas na verdade eu acho que cheguei um pouco antes. Era 21h, achei que a apresentação começaria entre 23h30 e meia noite. Ledo engano.

Um momento que dá o tom de como foi tudo
O lugar estava um pouco escuro, nada diferente na decoração dos ambientes, já que fiquei sabendo um pouco antes de chegar ao local, enquanto estava no ônibus, que haveria uma balada depois – ou antes – do show. A tensão era grande e a vontade de ouvir ao vivo músicas que marcaram várias passagens da minha vida também.
Foram longas horas de espera. De repente veio uma chuva fraca, isso já passava das onze da noite, nada da principal pessoa aparecer. A galera começava a se exaltar, gritar que o show só iria começar junto com a chuva, ainda mais forte. Antes fosse assim.
Nem as piores previsões poderiam ser tão otimistas. Em 20 minutos o céu desabou, choveu pra caramba, alguns documentos e dinheiro foram enrolados em uma sacolinha plástica, e a música rolando no som, enquanto aguardávamos pelo show, se repetia pela terceira vez. Até a uma da manhã choveu muito, constatei que os documentos, o celular – importante para a ocasião – e o dinheiro estavam molhados. BEM MOLHADOS. Momentos de desespero depois, o lugar guardado por algumas horas perdido, enfim começa o show. Uma da manhã, todas as pessoas que ficaram à frente do palco encharcadas. Entra a moça com seu cabelo comprido, e seu estilo claustrofóbico de “dançar” que vem desde as suas primeiras apresentações. Alanis Morissette adentra ao palco. Com uma iluminação muito boa. Parecia um clarão da quase tempestade que caia sobre a cabeça do público.
Na verdade, nesse momento, eu não estava concentrado na apresentação ainda. Estava tentando sentir o que se passava interna e externamente, já que coisas importantes haviam molhado, mas quanto a isso eu não poderia fazer nada. A vontade de sentir o show era grande também, porém faltava-me concentração. Se não me falhe a memória ela abriu o show com uma pequena introdução e na sequencia emendou Uninvited. Interessante. A expectativa enfim alcançava o ápice, eu podia ouvi-la cantar ali, próximo a mim.
A chuva não tinha parado, mas quem ta na chuva é pra se molhar, certo? Então lá pela terceira música meu cérebro começou a sentir o que era realmente estar em um show no qual as músicas fizeram parte da minha vida. Já fui a alguns shows antes – legais eu confesso -, mas esse era especial, pois me fazia relembrar cada momento importante que tive ao lado da pessoa que amo até hoje.
Em certas músicas, como Flinch, Hand in my Pocket e Unsexy as lágrimas corriam pelo meu rosto de tal forma que eu não sabia se ainda continuava a chover. Dessa vez eu entendi por que as pessoas choram em shows. Solucei de tanta emoção ao identificar aqueles acordes e as notas vocálicas que ainda têm tanta expressão em minha vida. Se não estivesse chovendo, com certeza, mais pessoas iriam perceber a minha emoção frente a frente com um pedaço da minha história.
O som era limpo, cristalino; quase perfeito. Os músicos sabiam o que faziam no palco. Em certos momentos Alanis se sacudia incessantemente por cada espaço cênico, enquanto seus roadies secavam o piso. Em outros, ela dançava com as mãos ou tentava tocar uma guitarra ou violão. Era um momento único que mesmo com todas as distrações se tornou impermeável ali na minha frente. Além de tudo isso, ainda marcou sete anos que conheço alguém especial, que com certeza é o maior motivo das marcações que a música de Morissette tem em minha vida.
Nós estávamos juntos nesse momento único qual o som trouxe de volta as imagens da minha vida. O choro e o fim da chuva com o fim do show. Três ou quatro músicas tocadas em versão acústica. Um bis de mais três ou quatro músicas. Na verdade eu queria que as duas horas de show durassem por mais tempo. Still time. Mas isso ainda não é possível. Ao final da apresentação a emoção transbordava em minhas veias, um te amo enquanto a música que ela mais gosta tocava, para marcar a noite. Depois de tudo isso, ainda fui pegar uma balada – que aconteceu depois – completamente encharcado enquanto esperava o ônibus que me levaria de volta para casa. Estava de volta ao mundo real, mas com um pedaço a mais de mágica em minha vida. A minha história passou em frente ao meu rosto e eu estava lá pra ver.
Enfim, percebi que envelheci, mas estou aproveitando as experiências que ganho com as oportunidades que me são dadas todos os dias.
A música que mais me emociona Flinch. Só um pouquinho do que rolou no show com a galera cantando junto. Enjoy.
Damien Rice, um show diferente e memorável em Florianópolis
Fevereiro 5, 2009
A divulgação foi precária, grande parte das pessoas presentes ficaram sabendo do show um ou dois dias antes da apresentação. Houveram vários problemas até que o local onde seria o show fosse decidido para que, somente, após isso o local onde poderiam ser comprado os ingressos fosse divulgado para o grande público.
O ambiente foi dividido em três setores. No primeiro setor havia alguns super fãs, os ricos que nem sabiam o porquê de estar ali e alguns outros blasés. Parecia aquele esquema de estar em um lugar só para aparecer, mas o Cacau não estava lá. Piada só para os moradores de Floripa.
Faltando 55 minutos para o início do show o ambiente montado para a apresentação não estava cheio. Existiam mais pessoas no setor A e quase ninguém no B e mais uma galera no C. Importante destacar que os ingressos não estavam tão caros, pelo quilate de quem iria se apresentar – mínimo de trinta reais para estudante e máximo de R$140 inteira.
A galera próxima e eu comentávamos sobre o não comparecimento do público local, o que no final do show, surpreendentemente, me fez morder a língua. Já que o auditório ficou quase lotado.
O show começou com meia hora de atraso, mas nada demais. O som estava ótimo e mesmo com uma iluminação simples o ambiente lembrava aqueles lugares perfeitos para pocket shows. Fiquei empolgado em perceber como coisas simples podem ficar tão boas.
Damien é um cara muito interessante. Acredito que muita gente devia imaginá-lo como uma pessoa triste, de repente autodestrutivo. Mas não, surpreendentemente é alguém alegre com muitas boas histórias para narrar, sem contar que em certos momentos do show parecíamos que estávamos em uma apresentação de stand up comedy. Tudo transcorreu perfeitamente, Rice tocou alguns clássicos, algumas músicas que eu ainda não conhecia e conversou com a galera como se estivesse em algum pequeno bar na Irlanda, sua terra natal. O som era perfeito lembrava muito o que ouvimos em seus CD´s. A falta da voz feminina de sua companheira quase não foi notada, por mim. O show foi ótimo. Seu Jorge entrou para dar o ar da graça, com certeza, muita graça. Seu Jorge adentrou ao palco conversou com a galera e tocou alguns sons conhecidos. Quando Damien voltou cada um tocou a sua “versão” de Blower´s Daughter. Enquanto um tocava o outro acompanhava atentamente. Foi um momento hipnótico.
A participação do público foi algo marcante já que em certo momento ele convidou quem gostava de cantar para que o acompanhasse no palco na interpretação de Volcano. Foi mágico ele tentando reger o coro de vozes no palco e também na platéia. Ele soube usar seu carisma para que todos aproveitassem o momento que ele concedeu para os mortais de participar de algo especial para cada um que ali estava presente.
Uma pena foi a não realização do meu devaneio de que antes do fim do show todos os setores iriam se misturar e cantar alguma música juntos em frente ao palco. Isso não aconteceu, mas quem sabe na próxima. Um detalhe importante, é que mesmo Florianópolis não sendo uma capital com tradição de grandes eventos artísticos houve um comparecimento massivo do público. Com certeza, motivo de orgulho para todos ou ainda poderia ser que o apelo da presença de Seu Jorge pode ter funcionado.
Damien estava muito solto, parecia muito feliz em se apresentar na cidade e shows assim são sempre muito bons. Em certa parte da apresentação Rice explicou o que o trouxe ao Brasil; um convite de Seu Jorge que ficou soando em sua cabeça por um bom tempo. Ele ainda cantou Canon Ball sem amplificação, foi excepcional ouvir a voz da galera junto com a de Damien.
Ao final da apresentação Rice convidou uma amiga para o palco mais o seu Jorge, colocou ali uma mesa duas garrafas de vinho e três taças. Contou uma história e encenou Cheer´s Darling. Pra mim uma surpresa muito bem arranjada. O show foi cheio de momentos agradáveis e memoráveis.
Antes de chegar ao evento eu me cerquei de expectativas, mas quando eu soube que iria assisti-lo sozinho sem uma banda acompanhando poderia ser um pouco chato, mas ele conseguiu manter a peteca no ar e encantou a todos que ali estavam para vê-lo. Seu Jorge com certeza foi algo a mais na apresentação, sua presença deu um brilho ainda maior ao evento. Mas, no entanto eu acreditei que poderia ser apenas uma estratégia de marketing para chamar mais pessoas, de repente até pode ter sido, mas o público parecia muito interessado em sentir a música dos dois.
Com certeza valeu a pena cada minuto. Ao final de tudo, para os sortudos que puderam esperar, Damien e Seu Jorge apareceram no estacionamento e conversaram com os fãs e Rice tocou ainda mais um som para matar a vontade que nunca passa de ouvir música boa ao vivo. Experiência de show pequeno em cidade grande, mais uma surpresa que Florianópolis resguardou para essa temporada.