O deprimente império das compras
Dezembro 19, 2008
É tudo tão de silicone e fora do esquadro, as pessoas sorrindo como se tivessem ganho um prêmio da loteria. É possível diferenciar quem tem mais dinheiro e quem tem menos, isso dói às vezes, pois estar em um lugar onde o propósito é comprar proporciona momentos de desilusão em pessoas que possuem uma vida significativamente na medida. Claro que sempre queremos mais, mas enquanto procuramos chegar ao ponto do “mais” é importante estarmos em paz com nós mesmos para conseguirmos alcançar esses objetivos.
Em shoppings movimentadissímos fica fácil perceber como as pessoas são ocas e desleixadas com suas vidas. Uma luz de vitrine leva embora todo o brilho da alma e deixa à vista somente o reflexo dos “pisca-pisca maravilhosos e encantadores” que convidam a gastar sem pensar no amanhã. Se as pessoas usassem essa vontade de não pensar no amanhã para outras coisas, com certeza teríamos uma realidade menos limitada. Não gosto de falar sobre as pessoas que realizam as suas vidas comprando coisas, pois isso já foi explorado em demasia. Mas sim, sobre o cinismo intrínseco que elas desenvolvem ao comprar produtos cada vez mais caros e sair do shopping xingando o flanelinha.
É tudo tão sórdido e superficial, até as pessoas mais esclarecidas são contaminadas por esse momento tão indisciplinador que é comprar. Tudo soa como os sinos de uma catedral, mas que invés do dízimo convida o ser humano a comprar cada vez mais do que pode. Deixando suas vontades principais morrerem de inanição à medida que se distrai com coisas mais supérfluas que a roupa vermelha que cobre o corpo do senhor de barba – falsa ou não – em diversos centros de venda mundo afora.
As relações desfeitas pelos presentes não dados, os abraços perdidos pelos desencontros do mundo das compras, as pessoas alienadas acreditando em tudo que vêem e lêem nos outdoors pelas ruas das cidades. Tudo indicando o que e como a sociedade moderna interage. Falsamente colocada em um ponto de estandarte para dizer posteriormente o que poderia acontecer com as nossas vidas perdidas no pacífico local das pessoas sem coração, domadas pelas possibilidades infinitas do meu cartão de crédito preto. Afinal, somos medidos pela cor do nosso cartão, se é ou não internacional. Tudo pode acontecer com quem tem muito para gastar. Mas quem não tem, luta para alcançar esse patamar e enfim se declarar feliz com o que tem; ou não?
E assim, depois de perder a conexão com seus desejos mais profundos e se vestir para a festa, mesmo quando vai ao shopping, tudo estimula a perda do que nós dizemos ser o cerne da vivencia humana. A perda da liberdade, da amabilidade tudo em nome de uma coisa só – a comprabilidade.
Não importa se essa palavra ainda não existe, mas ela já rege todo o subconsciente da maior parte da população mundial. Se é comprável é bom. Se não é, iremos descobrir qual o seu preço e anunciar na internet, assim mais pessoas poderão verificar a queda de algo que se julgava incorruptível.
Amanhã, se as pessoas não lembrarem de seus próprios rostos, parabéns! É porque elas compraram um novo na promoção ali do lado.